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Olavo Esteves: As Estradas que Construiu Ainda Levam o Seu Nome

Abr 10, 2026

Na Praia da Vitória, os ralis seguem em frente, mas não sem olhar para trás.

Carro de rali em estrada de terra na ilha Terceira durante o Rali da Praia rodeado por hortênsias e paisagem verde
Olava Esteves ~2011

Na Terceira, os ralis nunca foram só um desporto. São sustentados, ano após ano, por pessoas que se dedicam a construí-los, protegê-los e passá-los às gerações seguintes. Durante décadas, uma dessas pessoas foi Olavo Esteves.

Fez parte do desporto quando este ainda se afirmava localmente e permaneceu à medida que evoluía para algo mais estruturado, mais competitivo e mais visível. Numa ilha onde o desporto motorizado depende menos da escala e mais do compromisso, esse tipo de continuidade não acontece por acaso, é fundamental.

Começou ao volante e rapidamente demonstrou que pertencia ali. Competindo na categoria Fórmula 2 dos Açores, tornou-se tricampeão regional, reconhecido não apenas pelas vitórias, mas pela forma como corria. Era metódico, preciso e profundamente ligado às exigentes estradas da ilha, e há relatos da época que o descrevem como um piloto capaz de controlar provas com consistência e ritmo, construindo resultados ao longo do tempo.

Mas aquilo que o definiu não foi apenas a forma como competiu. Foi o que escolheu fazer depois. Com o passar dos anos, fez algo que poucos fazem: ficou e construiu. Passou de piloto a organizador, de participante a impulsionador, ajudando a criar as condições que permitiram o crescimento dos ralis na Terceira. Através do seu trabalho em eventos, equipas e iniciativas locais, incluindo o seu próprio projeto, o OEC – Olavo Esteves Competições, contribuiu de forma decisiva para a estrutura que hoje sustenta o desporto na ilha.

Era conhecido pela forma discreta mas determinada com que se mantinha presente. Nem sempre no centro das atenções, mas quase sempre no centro do que fazia acontecer.

O Terceira Automóvel Clube viria mais tarde a reconhecê-lo como uma figura marcante do desporto motorizado local. Esse reconhecimento não se prende com um único momento, mas com anos de presença contínua. Manteve-se ativo durante décadas, organizando, apoiando e fazendo avançar o desporto de formas muitas vezes invisíveis, mas sempre essenciais.

Esse esforço não se limitou a manter o que já existia. Também procurou expandir o que os ralis podiam ser na Terceira. Esteve por detrás de iniciativas como o Ladies Rally Trophy Açores, uma competição exclusivamente feminina, um formato pouco comum na altura que ajudou a abrir o desporto a novos participantes e perspetivas. Promoveu também eventos como o Praia da Vitória Motor Show, onde diferentes disciplinas e formatos se cruzaram, trazendo nova energia e novos públicos ao desporto motorizado local.

Estas não foram pequenas mudanças. Foram escolhas deliberadas, com impacto real. Procurou alargar o desporto, tornar possível a entrada de novos participantes e criar espaço para que diferentes formas de viver o automobilismo encontrassem lugar na ilha. Neste sentido, Esteves não se limitou a manter os ralis. Ajudou a reinventá-los.

Quando faleceu em dezembro de 2025, a reação na Terceira refletiu esse impacto mais amplo. Clubes, organizadores e concorrentes falaram não apenas das suas conquistas, mas da sua presença. Durante tanto tempo fez parte do desporto que se tornou difícil separá-los, e a sua ausência não foi abstrata, foi sentida.

Poucos meses depois, a Praia da Vitória acolhe o seu primeiro rali oficial: Rali da Praia 2026.

Para o concelho, trata-se de um início, mas dentro da própria prova existe também um reconhecimento claro do que a tornou possível. A especial de abertura leva o seu nome, uma homenagem discreta mas significativa ao seu contributo para o desenvolvimento do desporto local. Esta primeira edição reúne 37 equipas e reflete uma estrutura de ralis em amadurecimento na ilha, construída através da colaboração entre organizações locais e figuras que há muito contribuem para o desporto.

Entre os participantes estão as suas filhas, Catarina Esteves Pedroso e Beatriz Esteves, que competem juntas como piloto e navegadora.

Para Catarina, levar o carro para a estrada é também levar consigo tudo aquilo que aprendeu com o pai. “O meu pai benzia-se sempre e eu faço o mesmo”, conta. “Ele dizia muitas vezes: ‘em caso de dúvida acelera, acredita que já passou’, e isso vai sempre na minha mente.” As memórias que guarda são vivas e concretas: recorda-o no final de um troço, no meio da estrada, de auriculares nos ouvidos a acompanhar os tempos pela rádio, de braços no ar a festejar.

Mas a ligação ao desporto começou muito antes de estar dentro de um carro. Catarina lembra-se de ser pequena e passar serões na oficina, sentada no chão sobre um pedaço de cartão, enquanto o pai preparava o carro. Brincava com peças velhas e ferramentas sujas e, como diz, sempre preferiu isso a brincar com bonecas.

Para Beatriz, o significado deste momento é ainda mais profundo. “Não estamos aqui pela competição, estamos aqui por ele”, explica. “Cada quilómetro é uma forma de o lembrar, de honrar tudo o que fez e de manter vivo o seu legado nos desportos motorizados.” Competir ao lado da irmã reforça esse sentimento, não apenas como equipa, mas como família. “Estamos juntas a celebrar o pai que tivemos e a nossa união, que de alguma forma ameniza a dor da sua partida.”

As memórias que guarda mostram um lado mais silencioso, longe do olhar público dos ralis. Recorda-o em dias de evento, no meio do caos, com tudo a depender dele e inúmeras responsabilidades a exigir-lhe atenção, e ainda assim a encontrar forma de parar. Encostava-se à cancela a vê-la dar voltas de kart, em silêncio, apenas a observar. Não era um homem de muitas palavras, nem expressava facilmente o que sentia, mas não era preciso. Sabia pelo olhar, pela forma como fazia questão de estar ali, que aquilo o deixava orgulhoso. É essa presença que permanece.

Há uma forma discreta como o legado funciona em lugares como este. Não se define pela escala ou pela visibilidade, mas pela continuidade, pelo que permanece ativo, por quem continua presente e por como o desporto é transmitido de geração em geração. Olavo Esteves ajudou a construir os ralis na Praia da Vitória muito antes de o concelho ter uma prova própria, e agora que esse rali começa, o seu nome faz parte dele, não apenas na memória, mas na própria estrutura do evento e nas pessoas que nele participam.

The roads are the same. The sound is the same. What has changed is who is now behind the wheel. And in Praia da Vitória, this continuity is no longer a memory. It’s in motion.

Drive Terceira- Rali da Praia Sponsor- Catarina-Beatriz- Olavo Esteves

A pedido de Catarina Esteves Pedroso e Beatriz Esteves, deixam um agradecimento especial a Fábio Riqueza, proprietário e responsável pela preparação da viatura, cujo apoio foi fundamental para tornar possível a sua participação neste rali.

Deixam também um agradecimento aos patrocinadores que estiveram ao seu lado: Drive Terceira, Click Ernesto Photography, Concerta, Titauto, Autocanto, Reboques Praia, Delman, Gandalata & Ventos, bem como a outros parceiros que preferem manter-se no anonimato, e aos muitos amigos que ajudaram a tornar este projeto possível.