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Golden Beer — Uma Memória de Portugal

Dez 15, 2025

A História Definitiva de uma Cerveja Portuguesa Desaparecida (1992–2000)

11 de dezembro de 2025
by: drive:Terceira


A Minha Introdução à Golden

Recordo-me bem da primeira vez que a Golden Beer me chamou a atenção. Não era uma cerveja que exigisse atenção — não como a Sagres ou a Super Bock, com a sua imagem confiante e cuidada. A Golden Beer surgia discretamente nas prateleiras, o seu rótulo amarelo simples quase obstinado na sua simplicidade, a tipografia preta pesada tão direta quanto as pessoas que a bebiam.

No início dos anos 1990, quando a Ilha Terceira parecia o seu próprio pequeno universo, a Golden Beer simplesmente estava lá — não anunciada, não celebrada, mas familiar da forma que só o quotidiano consegue ser.


Memórias de Verão e de Noite

As minhas memórias mais vivas desenrolam-se sob o sol de verão, durante as touradas à corda. Um velho camião agrícola chegava antes da multidão, a caixa transformada num bar improvisado. A arca congeladora profunda — inclinada de lado ou um frigorífico antigo colocado na horizontal — estava cheia de garrafas enterradas no gelo.

Dois homens trabalhavam sem parar, sem nunca largar o abre-cápsulas. Moviam-se como máquinas, três garrafas de cada vez, as tampas a saltar em ritmo: clink — clink — clink. Esses sons misturavam-se com a música da tarde: o grito da multidão, o sino do touro, a conversa dos vizinhos.

A Golden não era apenas para as festas do dia. Era também a bebida das noites da ilha. Em discotecas como a Lareira, no Juncal, a Baleia, na Fonte Bastardo, ou o Twins, em Angra do Heroísmo, a Golden estava nos frigoríficos atrás do balcão.

Dançávamos noite dentro ao som de Sinéad O’Connor e Enigma, misturados com batidas euro-techno que pulsavam nas colunas, máquinas de fumo a sibilar e luzes a girar. A Golden Beer não era uma afirmação; era a companhia constante dos nossos fins de semana.


O Nascimento Silencioso de uma Cerveja Silenciosa

A Golden Beer foi lançada em 1992 pela Centralcer / Sociedade Central de Cervejas (SCC), a cervejeira por detrás da Sagres. A marca surge apenas como uma nota discreta na cronologia corporativa da SCC — um silêncio que, por si só, é revelador.

Tratava-se de um produto criado para cumprir uma função, não para ser celebrado.

O início dos anos 1990 foi um período de transformação na indústria cervejeira portuguesa. A SCC modernizava operações, ajustava a distribuição e refinava a sua estratégia de portefólio. Nesse contexto, surgiram marcas de segmento económico destinadas a proteger as marcas-bandeira, testar canais e ocupar faixas de preço mais baixas.

A Golden Beer enquadrava-se perfeitamente nesse modelo: uma lager clara do dia a dia, produzida para consistência e preço — não para prémios.


Onde a Golden Beer Encontrou o Seu Lugar

No continente, a Golden Beer aparecia discretamente em cafés, pequenas mercearias e espaços locais onde o preço e a disponibilidade eram determinantes.

Nos Açores, porém, a história foi diferente.

As ilhas têm uma rotação de produtos mais lenta e padrões de distribuição próprios. Marcas que desaparecem rapidamente no continente muitas vezes persistem nos mercados insulares. A Ilha Terceira manteve a Golden Beer viva nas suas festas, bares e casas muito depois de se ter tornado rara noutras regiões.

Copos, latas e espelhos promocionais sobreviveram como artefactos físicos, oferecendo prova visual onde os registos corporativos do continente falham.


Porque Desapareceu

O desaparecimento da Golden Beer foi gradual e sem dramatismo.

A reestruturação corporativa e o refinamento estratégico da SCC no final dos anos 1990 e início dos anos 2000 privilegiaram marcas mais fortes e com margens mais elevadas. Ao mesmo tempo, os consumidores portugueses começaram a inclinar-se para rótulos premium, importações e marketing baseado em identidade.

O espaço nas prateleiras tornou-se um campo de batalha dominado pelos grandes intervenientes. Produtos de baixa rotação e baixa margem foram os primeiros a sair. A Golden Beer foi vítima da evolução natural do mercado e da eficiência corporativa — deixou de existir porque as condições que justificavam a sua produção deixaram de existir.


O Que Sobrevive

Restam apenas fragmentos:
copos promocionais guardados em armários de cozinha,
latas que surgem ocasionalmente em vendas de colecionadores,
cápsulas com marcações de fabrico,
um espelho recuperado de um bar antigo.

Mais duradouras são as memórias — das garrafas geladas, do estalo da cápsula, da música nas discotecas, do grito numa tourada. Essas sensações são o verdadeiro legado da Golden Beer.


Lacunas no Registo

Há aspetos que provavelmente nunca saberemos: a receita exata, o nome do mestre cervejeiro, números internos de vendas ou o memorando formal que determinou o fim da marca. Esses documentos, a existirem, permaneceram nos arquivos privados da SCC.

A história da Golden Beer é, por isso, uma combinação do que está documentado e do que a memória coletiva preserva.

Ainda assim, este artigo reúne a totalidade do conhecimento de fonte aberta disponível atualmente, combinando referências corporativas, artefactos de colecionadores e memória cultural para oferecer o relato público mais completo possível.


Uma Última Palavra

A Golden Beer nunca foi pensada para ser lendária. Foi um objeto comum na vida de pessoas comuns: companheira de festas, presença habitual em discotecas, bebida de café.

Talvez essa normalidade seja a sua qualidade mais nobre. Ao recordá-la, recordamos uma forma de viver.


drive:Terceira incentiva o consumo responsável. Nunca beba e conduza.